Relatório “Instrumentos de Política Comercial para o Setor Siderúrgico”: a política industrial ganha peso relativo em relação à defesa comercial clássica

O estudo “Instrumentos de Política Comercial para o Setor Siderúrgico”, elaborado pela Quipu Advisors para a Alacero, apresenta uma análise das principais ferramentas aplicadas em toda a cadeia de valor do aço entre 2008 e 2026.

A pesquisa examina 18.475 medidas de política comercial, das quais 4.934 foram aplicadas a aços básicos e 3.345 afetaram a China. O estudo distingue dois grandes grupos de instrumentos: as medidas “de fronteira” — como antidumping, salvaguardas, tarifas e restrições quantitativas — e as medidas “domésticas” — entre elas, empréstimos, financiamento público de caráter geral, compras governamentais, requisitos de conteúdo local e controles de investimento. 

Os países que melhor se saíram nesse novo cenário, como os Estados Unidos e a Europa, combinaram medidas “de fronteira” e “domésticas” em pacotes articulados. Além disso, a defesa não se concentrou apenas nos aços básicos: essas estratégias vêm sendo aplicadas cada vez mais ao longo de toda a Cadeia de Valor. 

O estudo também mostra que a América Latina continua atrasada em relação ao resto do mundo e apresenta uma forte disparidade interna. O México construiu o conjunto de medidas mais amplo e avançado; o Brasil combina defesa comercial ativa com empréstimos e financiamentos públicos de alcance geral para sua indústria; enquanto a Argentina adotou, nos últimos anos, uma orientação mais aberta, com um uso relativamente menor de instrumentos de política comercial e industrial.

A defesa comercial clássica perdeu peso relativo. Nos últimos dez anos, as medidas “de fronteira” aplicadas mundialmente aos aços básicos importados da China passaram a representar 31% do total (contra 49% entre 2009 e 2014), enquanto as medidas “domésticas” aumentaram para 69% (contra 51%).

Em nível global, os países desenvolvidos são responsáveis por 66% das medidas adotadas nos últimos cinco anos. A América Latina concentra apenas 7% — ou 3,28% se excluirmos o Brasil. Essa dinâmica prejudica a região, que demora a reagir, sem uma resposta rápida.

“A política industrial voltou a ocupar um lugar de destaque no debate global como um instrumento cada vez mais utilizado e aceito pelas principais economias. É importante que os países da América Latina reajam de forma mais ágil e coordenada, para evitar sofrer as consequências predatórias do comércio chinês sobre nossas cadeias industriais locais”, explicou Ezequiel Tavernelli, diretor executivo da Alacero. “Por outro lado, há uma oportunidade estratégica de buscar uma aliança com os países ocidentais para reorientar as cadeias de abastecimento, aproveitando as vantagens estruturais da América Latina”, concluiu.